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17 de Agosto de 2019

Cooperação: por que a teoria do “dilema do prisioneiro” funciona na vida real

3ª parte da série "Teoria do Desacordo" - uma abordagem original sobre as dinâmicas da decisão autônoma de concordar & discordar.

Thiago Venco, Diretor Geral
Publicado por Thiago Venco
há 4 anos

Cooperao por que a teoria do dilema do prisioneiro funciona na vida real

Se você assistiu o filme “Uma Mente Brilhante”, conhece o criador do Dilema do Prisioneiro: John Nash, Nobel em Economia. Mas não foi ele quem aplicou esta tese original da chamada Teoria dos Jogos na Teoria da Cooperação: foi outro estadunidense, Robert Axelrod, quem entendeu que se poderia aplicar o problema de tomada de decisão proposto pelo “Dilema” em situações cotidianas. Além disso, Axelrod também percebeu que com o apoio de computadores, poderia fazer simulações de diferentes estratégias de decisão para tentar descobrir qual delas fazia nascer a cooperação – entre humanos, mas também entre animais (mutualismo, simbiose), complementando os estudos sobre a natureza da competição na evolução das espécies.

Por Thiago Venco, especial para o JusBrasil

Cooperao por que a teoria do dilema do prisioneiro funciona na vida real

O Dilema do Prisioneiro é uma alegoria, uma narrativa que facilita o entendimento da matriz matemática que o sustenta, permitindo o problema nos seja apresentado em linguagem natural, para que intuitivamente se perceba qual é a dificuldade de encontrar uma única resposta, uma única solução (daí o “dilema”).

Cooperao por que a teoria do dilema do prisioneiro funciona na vida real

A história é assim:

Dois criminosos são capturados pela polícia. Eles são encarcerados em locais diferentes e não podem mais se comunicar um com o outro. O poder judiciário estabeleceu uma proposta de acordo com os presos, que determina o tamanho da penalidade que eles receberão, dependendo de sua decisão sobre “denunciar o seu comparsa” ou “calar-se sobre o que aconteceu”.

O problema dos criminosos é que não conseguem tomar uma decisão “lógica”, ou “mais eficiente” – dedurar ou não dedurar? - pois a lei que define este acordo previu, engenhosamente, o seguinte esquema de penalidades:

· Se ambos se denunciarem, a pena será de 5 anos

· Se os dois ficarem calados, saem livres em 6 meses

· Se um delatar e o outro se calar:

- O delator sai livre

- O acusado fica com a pena máxima, 10 anos

Isolados cada um em uma cela, eles pensavam: “Se eu delatar, é melhor, pois se eu der sorte e meu colega der uma de altruísta, eu saio livre. Por outro lado, 5 anos serão pesados... Será que ele conta com minha fidelidade, para sairmos em 6 meses? Mas se eu me calar... Posso pegar 10 anos!”.

  • A cooperação, no caso, a decisão de ambos ficarem calados não é a “melhor” (melhor é sair andando!): mas talvez ela seja a “menos pior”.

  • A decisão da mútua traição pode não ser a “pior” (pena máxima, uma década!), mas é bem pior do que 6 meses.

* * * * * * * * * *

Esta é a Teoria, a alegoria, a forma que dá acesso ao conteúdo matemático do Dilema. Mas e na vida real? E no reino animal, onde não existe poder judiciário, lei, acordos, polícia, celas separadas, dosimetria fina de penalidades, condenação, encarceramento... Como o Dilema pode ser aplicado para passarinhos que limpam dentes de jacaré, rêmoras que nadam ao lado de tubarões?

Cooperao por que a teoria do dilema do prisioneiro funciona na vida real

O livro de Axelrod responde isso de diversas maneiras: A Evolução da Cooperação é um livro científico que pode ser lido por um aluno de colegial, pois traz muitos exemplos de aplicação dos modelos teóricos na vida real.

Neste artigo, temos uma abordagem própria que pode dar uma coesão adicional ao conjunto de exemplos: é uma continuidade de nossa pesquisa na Teoria do Desacordo, que aborda o problema de “concordar & discordar” em termos de “penalidades & recompensas”.

Nosso enfoque une a Teoria do Desacordo com a Teoria da Cooperação, permitindo que compreendamos um aspecto estrutural da penalidade, um aspecto concreto e material ao qual todos estamos sujeitos como seres vivos:

  • A ideia de penalidade que estrutura o Dilema do Prisioneiro pode ser entendida como “sermos coagidos a realizar algum tipo de esforço indesejado”.

A hipótese chave de nossa pesquisa na Teoria do Desacordo se apresenta na seguintes proposições:

  • Toda a penalidade pode ser definida em termos de esforço indesejado. Toda discordância traz em si uma penalidade que resulta em esforço indesejado.
  • Toda recompensa pode ser definida em termos de poupar esforços. Toda concordância traz em si uma recompensa que resulta em economia de esforços.

A “dose” da pena, portanto, não está definida em contrato – mas pode ser percebida a posteriori, depois que as consequências das decisões aconteceram. Quem causou mais esforço para o outro? Quem saiu livre?

Pense no imposto que pagamos - com questionável retorno - como esforço indesejado. Ou como o fato de termos que lidar com as doenças relacionadas à poluição do ar; pense em “esforço indesejado” como o tempo perdido no trânsito das cidades. Pense na inflação, nos juros, na violência (física ou psicológica). Ou no equipamento quebrado logo após a garantia.

Cooperao por que a teoria do dilema do prisioneiro funciona na vida real

Não é sempre que temos todos os “personagens” do Dilema em cena: incontáveis situações cotidianas em que não existam pessoas equivalentes aos policiais nem juízes estipulando a sentença - apenas duas pessoas, que vão tomar decisões que afetam a vida uma da outra, com total independência e autonomia.

Esta passagem da teoria para a prática tem uma implicação fundamental:

Se pretendemos adotar uma estratégia que conduza à Cooperação, é essencial compreender as qualidades e intensidades da punição causada ao outro, assim como da punição recebida (sempre em termos de “esforço indesejado resultante das decisões”).

Na ausência de autoridades centrais, o tamanho da penalidade será equivalente ao esforço indesejado que a decisão venha a causar o outro, em suas qualidades e intensidades. Portanto, se algumas destas “penas” independem de “pacto social”, ou contrato jurídico, isso não invalida a aplicação do Dilema do Prisioneiro: basta definir o equilíbrio de forças em termos de esforço indesejado.

Mas como isso nos ajuda a entender as dinâmicas sociais nas quais estamos... Aprisionados? Que impacto esse equilíbrio de penalidades tem na nossa vida cotidiana?

É preciso ter em mente que as simulações de computador feitas por Robert Axelrod consistiam em adotar centenas de diferentes estratégias de decisão (Trair ou calar? Concordar ou discordar?), para saber qual tipo de postura diante de um “antagonista” seria mais eficiente em levar a um estado de Cooperação, ou seja, a um resultado “menos pior” para ambas as partes, evitando situações de exploração de apenas um dos agentes envolvidos.

Cooperao por que a teoria do dilema do prisioneiro funciona na vida real

Portanto, o que Axelrod indica é que diante de oponentes exploradores, ou seja, que apostam na penalização máxima de seu oponente, é preciso criar um desestímulo à esta estratégia, elevando a penalidade do antagonista até o ponto do Dilema em que ambos são condenados a 5 anos; este incômodo, este impasse da dupla penalização faz com que, por contraste, a opção de cooperar em prol da punição “menos pior” (não é a melhor), dos 6 meses, seja mais desejável.

A ruptura do padrão “exploratório”, não-cooperativo, está diretamente ligada à dosimetria do “esforço indesejado” causado entre as partes: Axelrod nota que, sem uma estratégia de defesa, a tendência é que a população “traidora” consuma a população “colaboradora” até o fim. Ele também demonstra que a reação estratégica apelidada de “OLHO POR OLHO”, que consiste em imitar o padrão de comportamento do oponente, penalizando quando penalizado e cooperando quando apoiado, obtém no longo prazo a melhor taxa de sucesso em equilibrar as decisões no modo cooperativo.

Ou seja: na vida real, é preciso compreender o quanto nossas ações são efetivas em termos de desestimular oponentes exploradores.

  • Este desestímulo é possível de ser compreendido como “a capacidade de reagir causando igual esforço indesejado para meu antagonista”.

Esse desequilíbrio explica porque algumas empresas no Brasil, concessionárias de serviços públicos como a telefonia, por exemplo, seguem desrespeitando as leis, a ANATEL, o PROCON, criando regras abusivas que somente tem chance de serem revertidas quando entram em cena as máximas autoridades centrais do Poder Judiciário: a sociedade não consegue impor derrotas à estes grandes grupos. Abaixo assinados, reclamações, posts no Facebook, ações em pequenas causas, nada disso consegue encurralar essas megacorporações e fazê-las cessar com a exploração da sociedade brasileira – com taxas altíssimas e qualidade péssima de serviço.

Também explica porque algumas pessoas impõem desacordos agressivos, violentos, no ambiente de trabalho, escolar ou familiar: sua estratégia é aumentar a penalidade de modo a criar um desestímulo à reação – impondo o duplo “esforço indesejado” de receber a penalidade e ainda inventar um modo de retribuir o ataque com uma dose eficiente de “esforço indesejado” para o oponente (que pode ser inclusive mais “resistente” à agressões e violências).

A discordância “não-violenta” propõe ao outro um trabalho de “revisão de crenças”: mude de ideia! Mude suas ações, faça de outro modo.

Pode até ser que o esforço seja mínimo e até mesmo zero (suponha que você ignore totalmente o desacordo, que ele lhe seja indiferente): mesmo assim, enquanto estrutura, está sempre presente e subjacente o risco ou potencial de levar o outro se ver impelido a fazer algo que ele não pretendia.

Seguiremos expondo nesta série de artigos as estruturas fundamentais que unem Acordos & Desacordos com a busca pela Cooperação na vida em sociedade.

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