jusbrasil.com.br
16 de Dezembro de 2018

Entenda o que é “Ética Contextualista” com a série de TV “House M.D.”

Uma estrutura dramática feita para aumentar a tensão: a prática peculiar da ética contextualista do personagem Dr. House.

Thiago Venco, Diretor Geral
Publicado por Thiago Venco
há 3 anos

Entenda o que tica Contextualista com a srie de TV House MD

Na série de televisão “House M. D”, que retrata um médico inspirado em Sherlock Holmes, capaz de diagnosticar as mais enigmáticas e raras doenças de seus pacientes, os autores constroem no roteiro uma série de “ruídos” éticos, um conjunto de condições desfavoráveis ao julgamento (decisão diagnóstica):

  • A pressão psicológica dos familiares
  • O pouco tempo de vida que resta ao paciente
  • A ameaça de processos judiciais caso o médico erre o diagnóstico
  • A falta de referencias na literatura médica para casos raros
  • As “pistas” contraditórias que os estranhos sintomas fornecem, apontando “falsos” diagnósticos para os médicos assistentes.
  • A pressão de outros médicos junto à direção do hospital, cansados de lidar com as ocorrências de má conduta do Dr. House.

Portanto, diante de tantos obstáculos ao julgamento, caso o Dr. House errasse -nestes contextos específicos - seria justo dizer que “faltou competência”?

Os roteiristas também construíram uma característica dramática desse personagem para ressaltar ainda mais a tensão com sua prática peculiar da ética:

Dr. House “força os limites” da conduta médica, realizando procedimentos de alto risco, quando considera que é a única forma de conseguir um diagnóstico que possa salvar a vida do paciente.

Portanto, nestes contextos ANORMAIS, atípicos, muito longe das “condições ideais de temperatura e pressão”, para o Dr. House alguns valores preponderam sobre outros:

  • O valor de “AUDÁCIA” se sobrepõe ao “PROFISSIONALISMO” (o respeito ao código de conduta médica);
  • O valor de “AUTO-SUFICIÊNCIA” se sobrepõe ao “TRABALHO EM EQUIPE” (ninguém quer ser “cúmplice” das arriscadas ações do Dr. House)
  • A “PROATIVIDADE” vence a “PRUDÊNCIA"
  • E por fim, o “HEROÍSMO” se sobrepõe ao “RIGOR”.

Assim, a série de TV induz a questão: este médico é “anti-ético”?

Não: sua forma de pensar a ética médica é diferente da maioria de seus colegas.

O Dr. House não é um inconsequente (o verdadeiro “anti-ético), aquele tipo de pessoa incapaz de refletir sobre a consequência de suas decisões – ao contrário! Ele está sempre calculando minuciosamente os riscos e ponderando:

· “Preservar minha reputação” VS “salvar a vida do paciente”

· “Preservar minha licença médica” VS “salvar a vida do paciente”

· “Preservar meu emprego” VS “salvar a vida do paciente”

· “Preservar minha equipe” VS “salvar a vida do paciente”

· “Preservar minha amizade” VS “salvar a vida do paciente”

· “Preservar meu namoro” VS “salvar a vida do paciente”

Sua peculiaridade heroica é arriscar-se para curar os doentes. Portanto o Dr. House não é um psicopata, um sujeito perigoso – pois o psicopara calcula friamente as consequências de suas decisões, mas somente para que elas o favoreçam, independente do impacto negativo que isso possa causar nos outros (ou no meio ambiente).

Entenda o que tica Contextualista com a srie de TV House MD

Imerso em contextos desafiadores (doenças raras) a ética do Dr. House pondera os valores de forma flexível, mantendo-se rigoroso apenas com o resultado final: salvar a vida do paciente.

Ele não é rigoroso com valores, portanto: ele é rigoroso com os objetivos e manobra de forma ousada em um ambiente em que as pessoas operam numa lógica de “ética fundamentalista”: ainda que o paciente morra, eu preciso seguir os valores de OBEDIÊNCIA estrita às regras do hospital.

* * * * * * * *

A ideia de “Ética Contextualista” deve ser compreendida como um processo, uma dinâmica de comunicação que se debruça sobre os impactos das decisões humanas e sobre a possível efetivação das responsabilidades sobre estas consequências - algo muito diferente de pensar a ética como um “princípio”, fundamento, essência... Ou pior: como um" objeto imaterial ", algo que se" tem ou não tem ".

Ou seja: você pode praticar a ética, assim como pode praticar um esporte, praticar uma técnica de escultura, praticar um instrumento... Você não pode" ter basquete ", “ter escultor”, “ter violoncelo”.

" Ter ética "- essa noção de posse é extremamente danosa por transmitir a falsa noção de que a ética opera numa lógica binária, de" sim "ou" não ", “existe” ou “não existe” - ter ou não ter (ética), eis a falsa questão! Ao contrário, a visão de praticar a ética traz implícita a possibilidade de um juízo de qualidade nessa prática: você pratica bem a ética?

Para praticar bem a ética contextualista, é preciso estar consciente de que os contextos interferem na tomada de decisão. Uma mesma decisão não pode ser padronizada independente do contexto.

Considere os seguintes fatores abaixo como possíveis formas de descrever o contexto, de modo a esclarecer se haviam condições favoráveis ou desfavoráveis à tomada de decisão:

Entenda o que tica Contextualista com a srie de TV House MD

* * * * * * *

A Ética Contextualista também opera os valores implícitos na tomada de decisão de forma flexível.

Confira esta pequena lista de valores - é possível que você decida que alguns destes valores sejam" desejáveis, aceitáveis "; outros você julgará" repulsivos "ou" indesejáveis ": mas antes, para melhor compreender a justificativa para tamanha" variedade "de valores, consultemos as bases: o maravilhoso Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa.

Identificamos no Houaiss 23 acepções possíveis, sem contar as expressões idiomáticas que usam a palavra valor. Dentre elas, ignoramos as relativas à economia/finanças/matemática para destacar:

1) Qualidade humana, física ou intelectual;

2) Talento, habilidade, competência;

3) Reconhecimento, dignidade;

4) Importância comparativa (ex: comparar alunos em uma mesma escola;

5) Série de traços culturais, ideológicos, institucionais, morais

6) Conjunto de princípios ou normas que almejam um ideal de conduta a ser buscado.

Eis a parcial lista de valores:

- FAMA

- ESTAR NA MODA

- AGRESSIVIDADE

- SENSUALIDADE

- SACRIFÍCIO

- SILÊNCIO

- RIQUEZA

- FORÇA

- PERFEIÇÃO

- ORGULHO

- SONHAR

- SER O MELHOR

- OBEDIÊNCIA

O exercício de decidir sobre a orientação destes valores (desejável / indesejável) deve seguir em frente; deve evitar a “zona de conforto” de uma perigosa compreensão vulgar, simplória, sobre como os humanos mobilizam valores para orientar suas vidas: o risco de acreditar, erroneamente, que se uma pessoa “tem” um determinado valor, ou “acredita em determinado princípio”, ela seja obrigada a SEMPRE guiar suas ações por este valor, independente do contexto.

Igualmente absurdo crer que as pessoas sejam capazes de SEMPRE agir de forma coerente com os valores que declaram, para si mesmas ou para os outros.

Infelizmente, este equívoco está massivamente disseminado e é a causa de inúmeras discussões e conflitos.

Ou seja, os valores que talvez sejam os mais" populares "não são os únicos; nem sequer são absolutos - ou será que" liberdade, igualdade, fraternidade ", os valores da Revolução Francesa, são uma unanimidade na Europa de hoje - com a xenofobia crescente em todo seu território? Qual o contexto da Revolução Francesa, qual o contexto da França sob ataques terroristas em 2015?

3 Comentários

Faça um comentário construtivo para esse documento.

Não use muitas letras maiúsculas, isso denota "GRITAR" ;)

Interessante artigo, sugestivo de infinitas reflexões. A situação também é frequentemente encontrada no cenário jurídico. Aliás em todas as dimensões da existência perceptível. Entendo que tudo gira em torno de algum contexto, ou de contextos. Em ocasiões, são vários os cenários que se interceptam, sendo relevante na dimensão humana o tempo disponível para reflexão e decisão para influir no contexto focado, já que, tendo o homem o poder de alterar circunstâncias, compete-lhe atuar para mudá-lo ou mantê-lo, sabendo que o contexto é contingente e está, pois, sempre em mutação em razão da aleatoriedade entrópica. continuar lendo

Obrigado pelo comentário Francisco! Estou trabalhando para divulgar esse entendimento da ética dependente do contexto, pois no dia a dia, a falta de compreensão sobre o que você muito bem chamou de "contexto contingente sempre em mutação em razão da aleatoriedade entrópica", leva a conflitos que muitas vezes são mal "diagnosticados". Dou um exemplo: ouvi um relato de um médico "sênior", que estava com um problema com um "médico júnior"; o jovem doutor atrasava a decisão diagnóstica, pedia exames adicionais, revia o caso, discutia... e o paciente morrendo. O médico experiente acreditava que na raiz do problema havia "um choque de gerações - esses jovens simplesmente não conseguem assumir uma posição". Os dois discutiram o problema profissional sem chegar no seguinte ponto: neste caso, não haviam "condições suficientemente boas" para uma decisão inequívoca. Porém, era preciso decidir algo, correr o risco, pois o paciente não podia esperar um refinamento de pesquisa que, em última instância, não forneceria um resultado inequívoco. Este dilema faz parte da ética médica: é preciso correr riscos, para evitar riscos do paciente. Se o caso fosse questionado em âmbito jurídico, facilmente a equipe poderia expor o dilema da tomada de decisão segundo a ótica contextualista, demonstrando que não se trata de um problema trivial de "competência / incompetência", muito menos de negligência. Por isso, a ética contextualista se relaciona com a questão da "autonomia", ou melhor, da "crise da autonomia", em que temos um quadro de profissionais "impotentes" (não querem decidir) e outros "onipotentes" (não enxergam relações de causa & efeito no mundo, apenas esperam que a realidade corresponda a sua vontade). continuar lendo

Me fez lembrar da "Régua de Lesbos".
Interessantíssimo artigo! continuar lendo