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20 de Agosto de 2017

A pergunta mais importante da humanidade: “Vale a Pena?”

Revelando a conexão oculta entre a ética, cooperação e autonomia, sob o enfoque da Teoria do Desacordo.

Thiago Venco
Publicado por Thiago Venco
há 2 anos

A pergunta mais importante da humanidade vale a pena

Vale a pena ler esse texto? Sim, vale a pena.

Você vai mudar sua forma de ver o mundo quando descobrir como e porquê esta pergunta é uma peça central nas engrenagens que movem nossa sociedade.

Antes de mergulhar na profundidade da questão, vamos começar pelo topo do iceberg, por aquilo que está “acima do nível do mar” e enxergamos com facilidade:

- De que “pena” estamos falando quando usamos esta expressão?

De uma penalidade, é claro.

Ninguém (em sã consciência) quer ser penalizado. Nosso instinto animal nos alerta: cuidado. Evite a pena. A penalidade é indesejada, é repulsiva – vai contra nossa vontade. Penalidades são obstáculos, prejuízos, atrasos, perdas. Pode ser dor, doença, fome, sede... Pode até ser a morte, a penalidade máxima.

A pergunta mais importante da humanidade Vale a Pena

A penalidade é, enfim, um “esforço indesejado”.

É um trabalho que não queríamos ter que fazer.

(Pai, afasta de mim esse cálice)

A penalidade consome energia física e mental: faz mal à saúde.

Ocupa nosso tempo. Nos faz perder tempo.

A penalidade pode custar caro – às vezes custa dinheiro.

A penalidade não é necessariamente uma punição imposta por alguém.

Vale a pena tentar saltar por cima deste riacho? A pena é cair na água gelada, quebrar alguns ossos nas pedras, molhar o equipamento, descer correnteza abaixo.

Vale a pena me expor à gripe em ambientes fechados no inverno? Vale a pena correr mais alguns quilômetros e ficar dolorido amanhã? Vale a pena usar este remédio sem consultar o médico?

A pergunta mais importante da humanidade Vale a Pena

Mas certamente existem situações nas quais identificamos o risco de alguém querer nos punir. Alguém que nos ameça com violência, castigos, multas, ofensas, difamação, humilhação, desprezo, assédio... E até indiferença.

Alguém ou uma instituição; o Estado, o Poder Judiciário, a Polícia, o Exército... Uma máfia, um bando, um grupo, uma turba raivosa?

Vale a pena assaltar um banco? A pena está prevista em lei, é o julgamento, a condenação, o cárcere, os anos de vida... Ou a morte.

Os exemplos acima demonstram que as penas variam em qualidade (tipo de esforço indesejado) e também em quantidade (intensidade e duração do esforço indesejado).

Mais adiante, quando já estivermos “abaixo da linha do mar”, falaremos da ideia mais complexa de propósitos ou objetivos das penalidades.

Por enquanto, a esta altura, você já deve ter percebido que a pergunta “vale a pena?” contém um cálculo de risco.

Será que serei penalizado?

Se sim, qual o tamanho desta pena?

Aguento o tranco? Seguro a onda?

É um cálculo mental: às vezes consciente, às vezes inconsciente.

Pode ser um exercício racional de avaliação de risco (matemático até) - mas pode também ser instintivo, irracional, um cálculo reativo, instantâneo, um cálculo que é puro instinto de sobrevivência.

Quanto melhor você faz esta ponderação de risco (vale a pena?) mais apto você está a sobreviver. A evolução da espécie depende de sua aptidão para fazer este juízo.

Lembra daquele passarinho que limpa os dentes do jacaré? Ambos decidiram que sim, vale a pena:

Vale a pena para o jacaré perder uma refeição miúda para evitar a dor de dente (penalidade). Vale a pena para o passarinho arrrumar comida fácil (poucos a disputam...) mesmo correndo o risco de cruzar com um jacaré “ruim de cálculo”.

Sem dúvida não se trata de fazer uma mera medição do “tamanho da encrenca”:

Trata-se de uma ponderação de valores que coloca penalidades em um prato da balança e recompensas no outro.

O resultado da avaliação de risco depende, portanto, de um “saldo final”: qual valor prevaleceu? Prevalecem as perdas ou prevalecem os ganhos?

- A recompensa é maior ou menor que a penalidade?

Nossa decisão humana, animal, depende dessa resposta.

E aqui chegamos na primeira parte submersa de nosso metafórico iceberg:

- O que é uma recompensa afinal? O contrário de uma penalidade?

Se a pena causa dor, a recompensa traz prazer?

Se a pena nos dá prejuízo, a recompensa dá lucro?

Se a pena consome tempo, a recompensa poupa tempo?

Sim: a recompensa sempre pode ser entendida como algo que nos “poupa esforços”.

Nosso cérebro nos recompensa com prazer quando sente que fizemos algo que vai poupar esforços futuros: uma boa noite de sono, uma boa refeição, um caminho mais rápido, uma ferramenta que facilita o trabalho, um dinheiro guardado para lidar com imprevistos, um casaco quente no frio.

Esta ideia fica mais clara ao considerarmos que nem sempre o dinheiro serve como recompensa, pois não necessariamente poupa esforços.

Certa empresa decidiu criar um maravilhoso berçario para que as mães que ali trabalham sejam poupadas de esforços indesejados: para que possam estar perto de seus filhos, para amamentá-los, para evitarem o sofrimento de deixá-los com outras pessoas, para poderem manter o contato com os bebês e crianças ao longo do dia.

Uma ONG de apoio a adolescentes com famílias desestruturadas decidiu que não podia recompensar a boa conduta com ingressos para a ópera. Os jovens queriam bonés de R$200 e para isso trabalhavam como carregadores de supermercado (em vez de estudar). Se o próprio boné fosse uma recompensa pelo bom desempenho, isso poupava esforços; enquanto a ópera gerava ainda mais “esforço indesejado” (não gosto, me sinto constrangido, tenho que me esforçar demais para me conectar).

Receber um altíssimo salário não é recompensa se não poupa esforços. Se ao contrário, impõe penalidades sob forma de esforço indesejado - trabalhe a ponto de sofrer problemas cardíacos precocemente, trabalhe a ponto de depender de remédios tarja preta para seguir em frente.

Resumindo:

- Quando fazemos a pergunta “vale a pena?”, estamos tentando entender se em determinado contexto vamos “poupar esforços” ou se seremos coagidos a realizar um “esforço indesejado”.

O elo oculto entre este comportamento humano e animal se explica, apesar das incontáveis formas em que se apresentam as penalidades e recompensas, por esta capacidade de “processar a informação” em termos de esforço ou trabalho.

Este cálculo de risco (vale a pena?) está no fundamento de uma pesquisa que resolveu um dos maiores enigmas da Teoria da Evolução, que tradicionalmente focou na questão da Competição entre as espécies: como explicar a Cooperação?

Como explicar a cooperação humana, mas também aquelas que observamos no reino animal? Este ramo da ciência é conhecido como Teoria da Cooperação.

A cooperação não é o contrário da competição: são fenômenos complementares, duas faces de uma mesma moeda. São duas estratégias diferentes de luta pela sobrevivência. Os objetivos são os mesmos: adaptar-se ao ambiente da melhor forma possível e garantir a perpetuação. Ambas procuram tomar a decisão certa para minimizar esforços indesejados e poupar o máximo de esforços no futuro.

Ainda que sob o risco de simplificar excessivamente, para sintetizar podemos dizer que a cooperação acontece quando as partes entendem que vale a pena optar pelo equilíbrio “menos pior” de penalidades & recompensas - para todas as partes envolvidas.

A cooperação evita a exploração - a situação em que o vencedor fica com tudo e o perdedor com nada (mais uma vez simplificando para seguir com o argumento).

Na cooperação, o juízo “vale a pena?” chega a conclusão de que se a recompensa não é máxima, a melhor possível, também não é a pior penalidade possível.

A disputa exploratória (“ganha tudo ou perde tudo”) tem seus próprios riscos.

Uma estratégia exploradora pode consumir todo o seu “alimento” (se o outro só perde, uma hora ele se esgota); ou pode gerar uma reação de oposição em igual ou maior intensidade.

Portanto, quando estamos discutindo os problemas sociais de nosso país, quando estamos falando das penalidades geradas pela corrupção, de violência, pela crise na educação, pelos conflitos no trabalho, em casa, no campo, estamos identificando contextos em que prevalecem estratégias exploratórias. Estamos diagnosticando a falta de cooperação, a carência de um equilíbrio de forças menos extremado.

A sociedade humana é dotada de uma capacidade argumentativa que diferencia sua tomada de decisão da mera “deliberação instintiva”. Nossa ponderação de valores, nosso exercício do “vale a pena” é mais sofisticado do que o da rêmora que navega colada no tubarão.

Problemas de “tomada de decisão” são o fundamento da ética. A pergunta “vale a pena?” é uma pergunta essencial deste ramo do pensamento social.

Não é precipitado dizer, portanto, que o exercício da ética deva obrigatoriamente considerar a questão das penalidades e recompensas, que deva jogar luz sobre a dinâmica de sofrer esforços indesejados ou poupar esforços.

A pergunta humana “vale a pena?” é capaz de levar em conta um contexto maior, que vai além da percepção/deliberação/decisão imediatista para considerar, inclusive, a dispersão do impacto de uma decisão no meio:

Será que vou gerar “esforço indesejado” para outros se jogar meu lixo no chão, em vez de guardá-lo até que encontre uma lixeira?

Será que a sociedade vai me penalizar se eu fizer um comentário racista nas redes sociais? Minha reputação pode estar em risco?

Será que se eu discordar da maioria dos meus amigos nesta questão política tão polêmica, eu serei penalizado com insultos, rompimentos, discursos inflamados?

Tanto no âmbito pessoal quanto no social encontramos esta avaliação de risco que influencia as decisões que tomamos em nossa vida, que determina nossa ética, que afeta nossa forma de agir.

Um próximo aprofundamento nos dá a dimensão que este fenômeno pouco discutido ocupa em nossas vidas: demonstraremos agora que todas nossas decisões de concordar & discordar são governadas por este mesmo princípio até aqui debatido: vale a pena?

Não vale a pena discutir futebol, religião e política.

Na minha família não vale a pena falar o que eu penso, eles todos discordam de minhas posições. É como falar com a parede. Ou pior, pois a parede não te ataca de volta.

Valeu a pena ter expressado minha opinião em sala de aula, o professor concordou comigo e seguiu em frente com a argumentação que eu havia iniciado, o que facilitou muito a discussão com os colegas.

Vale a pena discordar de pessoas inteligentes, pois mesmo se você estiver errado, elas podem te ensinar a ver a questão por um outro ângulo que você ainda não havia compreendido. Pode ser desagradável na hora “tomar uma lição”, mas pior seria ficar sustentando ideias equivocadas.

Este enfoque faz uma união original, ainda pouquíssimo explorada, entre a Teoria do Desacordo e a Teoria da Cooperação.

A pergunta mais importante da humanidade Vale a Pena

Ao associar o desacordo com “esforço indesejado” e a concordância com a capacidade de “poupar esforços”, apresentamos uma nova forma de compreender os dissensos e consensos que vai além das pesquisas tradicionais que discutem o desacordo enquanto um problema da “assimetria de conhecimento” - ou seja, que procuram entender o desacordo como um problema que nasce da falta de “embasamento técnico” de uma ou ambas as partes.

O ponto chave é considerar que o ato de decidir concordar ou decidir discordar pode ser um ato estratégico – e não uma questão de “compreensão” ou “incompreensão” do tema.

Nós optamos por concordar ou discordar fazendo a avaliação: neste contexto isso vai me gerar “esforço indesejado” ou vai me “poupar esforços”?

- Mesmo que eu considere que estou certo, vale a pena discordar?

Para Galileu Galilei, o que estava em jogo era: sua discordância vai lhe custar a vida. A igreja católica queria puni-lo com a morte por sua afirmação de que a Terra girava em torno do Sol. Galileu decidiu que não valia a pena insistir.

Quando concordamos publicamente com alguém, estamos fazendo um gesto social de recompensar esta pessoa.

Sem dúvida o voto na democracia se concretizou como forma de recompensar o acordo com um candidato; mas igualmente os “likes” ou “curtir” do Facebook são uma forma de recompensa social.

Quando nosso grupo percebe que estamos com um “saldo positivo” de concordância, isso influencia nossa reputação; a reputação é um elemento essencial na Teoria da Cooperação, pois representa não um mero “status”, mas uma memória social que influencia a forma como o outro irá nos tratar no próximo encontro.

A reputação interfere em nossa decisão: vale a pena cooperar com esta pessoa? Que tipo de “decisor” ela é? Qual sua ética – cooperativa ou exploratória?

A reputação guarda a memória de como determinada pessoa pune o desacordo; ela é agressiva quando discordamos dela?

Tal pessoa é generosa ao concordar? Ela me recompensa facilitando meu trabalho, poupando esforços sociais, me insere em redes cooperativas, dedica tempo e inteligência para reforçar minhas posições? Portanto, vale a pena eu me relacionar com esta pessoa, cooperar com ela para que ela coopere comigo?

Governos ditatoriais punem a discordância com o ostracismo, com a tortura e assassinato. O que eles estão fazendo é deixar claro que se criarem “esforço indesejado” para os ditadores, os ditadores responderão com um grau imensamente maior de penalidade. A mensagem é: não vale a pena discordar da ditadura. O risco é muito grande. O risco não vale a recompensa.

E aqui chegamos ao final desta primeira exposição sobre o porquê o “vale a pena” é a pergunta mais importante da humanidade.

Nossa autonomia, nossa capacidade de tomarmos decisões de forma independente, sem a tutela de uma autoridade superior (os pais, o Estado, instituições religiosas) é dependente de como nosso contexto pune o desacordo e recompensa o acordo.

Nossa ética não é “pura”, nem “ideal”: nossa tomada de decisão depende do risco que o ambiente impõe. Portanto, nem sempre conseguimos agir de acordo com nossos princípios (vide o caso de Galileu Galilei) pois o risco de sofrer penalidades graves pode ser grande demais.

  • A pergunta “vale a pena” mobiliza nossa inteligência animal, nossa aptidão de perceber os riscos inerentes ao meio ambiente; é questão de sobrevivência. É uma questão essencial da evolução da espécie.
  • A pergunta “vale a pena” determina nossa estratégia social de competição ou cooperação; nos coloca no dilema de lutar contra exploradores ou sucumbir à sua força bruta. Nos revela o quanto a cooperação independe do altruísmo, caráter, espírito – está ao contrário intimamente ligada à problemas rudemente concretos como a “lei do mínimo esforço”.
  • A pergunta “vale a pena” desafia nossa capacidade de sermos seres dotados de autonomia, livre arbítrio, de nos guiarmos por nossas crenças, valores, moral, resistindo às pressões sociais que tentam nos impedir de manifestarmos posições discordantes.

A pergunta mais importante da humanidade Vale a Pena

  • A pergunta “vale a pena” nos coloca a responsabilidade de ampliarmos a análise de risco para considerar o impacto na natureza do planeta, no impacto que estamos criando para as gerações futuras – de todos os seres vivos.
  • A pergunta “vale a pena” nos faz questionar que modelo de sociedade queremos: uma que se impõe pela força bruta ou uma sociedade capaz de minimizar ao máximo o “esforço indesejado” da discordância, procurando formas de comunicação não violentas, de mediação de conflitos, capaz de entender o papel da pedagogia na construção de pontes que poupem os esforços inerentes à discordância.

É por isso que defendemos (com algum exagero retórico, certamente) que esta é a pergunta mais importante da humanidade.

A pergunta mais importante da humanidade Vale a Pena

6 Comentários

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Nossa que artigo inspirador! Adorei, gosto muito da teoria dos jogos aplicada às decisões políticas, mas esse seu ponto de vista me surpreendeu! Poderia me sugerir artigos ou livros aprofundando esse ponto de vista? Parabéns!!!! continuar lendo

Oi Carolina! Você já leu "A Evolução da Cooperação" do Robert Axelrod? Esse vale a pena haha, aliás, uma pena pequena, um livro muito agradável de ler.

Escrevi uma introdução aqui (http://thiagovenco.jusbrasil.com.br/artigos/169816580/a-evolucao-da-cooperacao).

Especificamente sobre a Teoria dos Jogos, escrevi esse artigo: (http://thiagovenco.jusbrasil.com.br/artigos/252258896/cooperacao-por-queateoria-do-dilema-do-prisioneiro-funciona-na-vida-real).

Sobre a associação de "discordar & punir" escrevi aqui também: (http://thiagovenco.jusbrasil.com.br/artigos/245519068/teoria-do-desacordooelo-oculto-entre-discordar-punir)

e aqui (http://thiagovenco.jusbrasil.com.br/artigos/249319477/teoria-do-desacordo-parte-2-esforco-risco-de-iniciar-um-debate).

Obrigado! continuar lendo

Thiago muito obrigada pelas sugestões, não li esse livro ainda. Vou dar uma olhada nos seus artigos e no livro agora. Muito legal quando uma perspectiva diferente consegue ampliar o campo de pesquisa. Muito legal. Eu sempre esbarrava nas "boas ações" das pessoas, pressupondo que o comportamento é racional e busca sempre maximizar a utilidade privada meu argumento enfraquecia. Mas, vou reformular com suas ideias. continuar lendo

Depois de responder a questões como: "Quem sou eu?" ou ainda, "De onde viemos?" - de natureza metafísica - temos ainda: "Pra onde podemos ir?" - onde a ética é o tema. Naturalmente, segue-se esta que vc colocou, que me parece de natureza pragmática: "Vale a pena?." Esta, se não é a mais importante, fico convencido de que é a mais desafiadora e sonora para nossos dias. Contudo, talvez, seja necessário responder antes a Aristóteles: qual o "sumum bonnum"? Parabéns pelo artigo! Inspirador. continuar lendo

Achei que valeu a pena a leitura e valerá a pena a busca pelo aprofundamento da questão. continuar lendo

Sim, Paulo, esta pesquisa está em andamento, tenho procurado apresentar as linhas gerais, mas ainda tem bastante coisa por vir! Obrigado! continuar lendo