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16 de Julho de 2018

Por quê a "Comunicação Não-Violenta" funciona?

Mais que boa vontade: a CNV dribla as estruturas mais profundas da persuasão e da dissuasão.

Thiago Venco, Diretor Geral
Publicado por Thiago Venco
há 4 meses

A "Comunicação Não-Violenta" (CNV) é um método de conversação com resultados surpreendentes, capaz de dissipar a agressividade e facilitar a transição de um conflito para uma negociação. Ou só transformar uma conversa desagradável em um contato construtivo, criativo e saudável.

A CNV foi desenvolvida pelo norte-americano Marshall Rosenberg. Em seus livros e vídeos ele enfatiza muito a compaixão. Destaca sua fé na capacidade humana de conexão com o outro e dá grande valor à necessidade de mudarmos a qualidade de nossas comunicações: elas estão profundamente enraizadas na violência. Concordo com ele - moralmente e tecnicamente.

Não pretendo aqui resumir as práticas da CNV - mas sim analisar uma engrenagem essencial de seu funcionamento.

Como pesquisador do desacordo, estudando as origens da discordância humana, localizo a agressividade como um pilar estrutural das comunicações dissuasivas - aquelas que tem o objetivo de levar o outro a mudar de decisões ou de ideias. Por isso me alinho a Marshall Rosenberg e enxergo nesse tipo de comunicação social uma fonte primária de estresse.

No entanto, me oponho aos pesquisadores da persuasão e dissuasão que fundamentam suas teorias na "intenção" ou "vontade"de quem quer influenciar o outro[1] . Por isso, me incomodava que a explicação do sucesso da CNV se baseasse na boa qualidade do propósito de quem se comunica. É fácil constatar o quanto somos capazes de sermos agressivos com quem amamos.

Mas se o sucesso desse método não se explica (somente) pelos bons sentimentos, pela intenção cooperativa, altruísta - como explicar os bons resultados da CNV, sem recorrer à subjetiva e frágil "motivação"?

Ao estudar os fenômenos da persuasão e dissuasão, procurei me afastar do ponto de vista unilateral, que organiza a explicação da atividade a partir dos objetivos de quem decide agir - dissuadindo, por exemplo, com a intenção de "induzir o outro deixar de realizar certa ação que eu não quero que ele faça".

Isso leva a uma observação da qualidade da relação que se estabelece entre as partes na comunicação dissuasiva e persuasiva. Quando consideramos a relação, podemos falar sobre quais são as expectativas de ambos os lados.

Existe uma expectativa comum às partes que anula, estruturalmente, o funcionamento das comunicações persuasivas: a expectativa conjunta de que uma das partes possa e deva permanecer passiva.

Ao iniciar o diálogo com uma postura passiva na comunicação, a CNV dribla a dissuasão - e portanto, a agressividade.

Nos grupos de discussão sobre CNV que participo, frequentemente o problema da passividade se coloca. O próprio Marshall Rosenberg desfez esses mal entendidos. A Comunicação Não-Violenta não propõe a submissão à tirania alheia! Quero crer que justamente ao contrário.

O termo "passivo" aqui é usado no sentido estrito de não se engajar no trabalho demandado por quem quer me dissuadir ou persuadir.

A prática da CNV não se mantém na postura passiva o tempo todo - mas sim, nas etapas da conversa que antecedem o que ele chama de "pedido". As etapas que admitem a postura passiva são as de "observação", "identificação de necessidades" e "constatação de emoções".

O poder da passividade na CNV ao se opor a dissuasão funciona assim:

- Quando o outro inicia uma comunicação que manifesta o objetivo de me fazer mudar de decisão ou crença, estruturalmente agressiva...

- ... Antes de eu discordar de volta, ou mesmo concordar, assumo uma postura passiva. Ou seja, não trabalho para recusar nem para aceitar a demanda do outro. Me engajo em outras atividades, portanto.

  • Investigar melhor a demanda da pessoa. Procurar entender a fundo o que ela quer de mim, por quê quer, quais necessidades e emoções a levaram a tentar me influenciar. Perguntar é uma atividade chave para isso.
  • Compreender melhor a natureza das minhas reações à demanda que o outro me faz, querendo me dissuadir ou persuadir. Antes de eu mesmo "devolver na mesma moeda", procuro constatar meus impulsos, deter a reação instintiva e instantânea (uma ferramenta importante na sobrevivência selvagem, mas que pode nos prejudicar na vida social).

Me chamou a atenção uma passagem em que Rosenberg afirma "não estar nem concordando nem discordando" [2], durante uma conversa difícil com palestinos em conflito com israelenses.

Nem concordar, nem discordar: esta é a chave. Mas como fazer isso, efetivamente - e não apenas disfarçando o desacordo com eufemismos?

Não é fácil manter uma comunicação que não pretenda - sinceramente - fazer o outro mudar ou manter suas posições. Por isso as perguntas são um recurso essencial nesta etapa. Igualmente são capazes de manter a "passividade" específica de não discordar nem concordar:

  • Relatar suas próprias interpretações sobre o que se passa nessa relação.
  • Relatar suas necessidades mais profundas, aquelas que compartilhamos com todos os seres humanos. Nossos "objetivos primários".
  • Relatar suas emoções.

Este artigo é apenas uma introdução a uma discussão muito mais longa que farei aqui sobre a relação entre dissuasão, discordâncias e ameaças.

Para quem ficou interessado no fundamento dessa conexão, fiz um pequeno artigo sobre o Nobel de Economia Thomas Schelling, que explica sua brilhante distinção entre as promessas de ajuda e as promessas de ameaças.

(https://medium.com/@thiagovenco/o-fil%C3%B3sofo-que-venceuabomba-at%C3%B4mica-f24342c57fe1)

[1] Guerini, Marco & Castelfranchi, Cristiano. (2006). Promises and threats in persuasion.

[2]Rosemberg, Marshall. Comunicação Não Violenta - Técnicas Para Aprimorar Relacionamentos Pessoais e Profissionais.

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